4# BRASIL 11.2.15

     4#1 A EMPREITEIRA E O AMIGO DE LULA
     4#2 COMO VACCARI MOVIMENTOU US$ 200 MILHES EM PROPINAS PARA O PT
     4#3 NOVO COMANDANTE
     4#4 HOUSE OF CUNHA EM NOVA TEMPORADA: AGORA  PRESIDENTE DA CMARA!

4#1 A EMPREITEIRA E O AMIGO DE LULA
Documento do BC comprova que Jos Carlos Bumlai contraiu um emprstimo irregular de R$ 12 milhes junto ao banco da construtora Schahin. Em troca, a empreiteira ganhou contratos com a Petrobras. Parte do dinheiro teria sido usada para comprar o silncio
Claudio Dantas Sequeira (claudiodantas@istoe.com.br)

Relatrio indito do Banco Central anexado a um inqurito da Polcia Federal, obtido com exclusividade por ISTO, revela que o pecuarista Jos Carlos Marques Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, obteve em outubro de 2004 um emprstimo de R$ 12 milhes junto ao Banco Schahin. O documento desmonta a verso de Bumlai de que nunca havia contrado financiamento do banco e refora denncia do publicitrio Marcos Valrio feita em 2012. Naquele ano, em depoimento ao Ministrio Pblico Federal, o operador do mensalo afirmou que o pecuarista intermediou uma operao para comprar o silncio do empresrio de transportes Ronan Maria Pinto. Segundo Valrio, Ronan ameaou envolver o ex-presidente Lula, e os ex-ministros Jos Dirceu e Gilberto Carvalho no assassinato do ento prefeito de Santo Andr Celso Daniel. Valrio tentava um acordo de delao premiada e disse ainda que, como contrapartida ao emprstimo a Bumlai, a Schahin foi recompensada com contratos bilionrios de arrendamento de sondas para a Petrobras. Os contratos esto na mira da Operao Lava Jato, que incluiu a Schahin no inqurito aberto para apurar o esquema de pagamento de propina e desvios na Petrobras, conforme antecipou ISTO em sua ltima edio.

SURGE A PROVA - Amigo de Lula, o empresrio Jos Carlos Bumlai sempre negou o emprstimo de R$ 12 milhes confirmado agora por documentos do Banco Central (abaixo) obtidos por ISTO

No documento do BC, datado de 7 de agosto de 2008, Bumlai aparece numa lista de 24 devedores do Banco Schahin beneficiados com emprstimos concedidos de forma irregular, sem a utilizao de critrios consistentes e verificveis. Para liberar a bolada, o Banco Schahin burlou normas e incorreu em seis tipos de infraes diferentes. Desconsiderou, por exemplo, a apresentao pelo cliente de dados cadastrais completos e atualizados, no procedeu qualquer anlise da capacidade financeira de Bumlai ou mesmo de seus avalistas. Em outras palavras, o emprstimo milionrio ao amigo de Lula foi liberado sem as garantias exigidas de qualquer cidado comum.

Ainda assim, quando Valrio revelou a operao, Bumlai poderia ter admitido o emprstimo e alegado outro destino para o dinheiro. Mas preferiu dizer que nunca teve nada a ver com o Banco Schahin. Todos os citados por Valrio adotaram a mesma estratgia. Questionado novamente, Bumlai, por meio de seu advogado, negou qualquer envolvimento com os fatos objeto de depoimento de Marcos Valrio. E o grupo Schahin classificou o caso como uma rematada mentira que jamais foi comprovada.

AS PRIMEIRAS REVELAES - Operador do mensalo, Marcos Valrio contou ao Ministrio Pblico que o emprstimo foi necessrio para proteger Lula, Jos Dirceu e Gilberto Carvalho

No bastasse a inobservncia das regras para a concesso do emprstimo a Bumlai, o Banco Schahin, segundo o documento do Banco Central, maquiou o nvel de risco da operao, classificando-a como B, quando na verdade era E, de acordo com a anlise do BC. O ranking de risco do mercado financeiro obedece a uma escala crescente de nove nveis, comeando em AA, praticamente nulo, e depois seguindo de A at H, o pior. Ao classificar o emprstimo com nvel de risco inadequado, o Schahin constituiu proviso insuficiente para fazer face s perdas provveis, informou o Banco Central. Alm de apontar inmeras deficincias nos controles internos da rea de crdito bancrio, o BC ainda determinou um ajuste contbil de R$ 108,7 milhes.

No  toa Bumlai foi escolhido, segundo Marcos Valrio, para ser um dos pontas de lana da operao. Pecuarista oriundo da regio Centro-Oeste, o empresrio foi apresentado ao ex-presidente Lula pelo ex-governador de Mato Grosso do Sul Zeca do PT. A afinidade foi tanta que uma das fazendas de Bumlai serviu de palco para um dos programas da campanha de Lula em 2002. Com a ascenso de Lula  Presidncia, Bumlai passou a desfrutar de acesso livre no Palcio do Planalto. Era recebido sem marcar hora e tornou-se um conselheiro de Lula para o agronegcio. Por indicao do ex-presidente, integrou o chamado Conselho do governo  Conselho de Desenvolvimento Econmico e Social.

Alm da burla a normas internas, as facilidades garantidas pela Schahin a Bumlai impressionariam, no tivesse o pecuarista a chancela da cpula do PT e, claro, de Lula. O emprstimo deveria ser quitado em uma nica parcela, com vencimento seis meses depois. Na data do vencimento, porm, o banco renovou o prazo e elevou o valor da dvida, incorporando os encargos. Esse procedimento foi repetido mais uma vez, sem que o devedor realizasse o pagamento de qualquer valor correspondente ao principal ou aos encargos. Com isso, o contrato 425/04, aps dois aditivos, chegou a aproximadamente R$ 15 milhes. Com efeito, o rgo regulador do mercado financeiro responsabilizou os gestores Sandro Tordin, Carlos Eduardo Schahin, Francos Costa de Oliveira e Jos Carlos Miguel pela prtica de m concesso das operaes de crdito, citando nominalmente o emprstimo feito a Jos Carlos Bumlai. Todos foram condenados  inabilitao para o exerccio de cargos de direo em instituies financeiras, mas a condenao foi depois convertida em multa, aps recurso.

Bumlai arrolou como garantidores do emprstimo o filho Maurcio de Barros Bumlai e a nora Cristiane Barbosa Dodero Bumlai. Estes, por sua vez, lanaram mo de empresas e terceiros para sustentar a operao, sem contudo demonstrar capacidade financeira para honrar o compromisso. Nas palavras do ento chefe do Departamento Fiscal do BC, Alvir Hoffmann, verificou-se que algumas operaes foram garantidas por avais, tanto de controladores das empresas tomadoras de recursos quanto de terceiros, dos quais no se encontrou a anlise da capacidade de honrar eventuais obrigaes. Dessa forma, a mensurao do nvel de segurana oferecido pelas garantias restou prejudicada, escreveu Hoffmann.

No relatrio do BC no h registro de que o pecuarista tenha quitado o referido emprstimo ou seus avalistas. Como se sabe, o Banco Schahin, antes de quebrar e ser vendido ao BMG em 2011, notabilizou-se por no reaver deliberadamente seu patrimnio. O mesmo aconteceu com um depsito de mais de US$ 100 milhes feito numa conta do Banco Clariden na Sua, montante este que, segundo revelou ISTO na ltima edio, serviu para alavancar outro emprstimo no Deutsche Bank para a construo dos primeiros navios-sondas que foram arrendados  Petrobras.

CONTRAPARTIDA - Os contratos de arrendamento de navios-sonda para a Petrobras renderam num primeiro momento  Schahin US$ 1,2 bilho

 justamente esse contrato, no valor de US$ 1,2 bilho, que Marcos Valrio disse ter sido entregue ao grupo Schahin como recompensa ao emprstimo a Bumlai naquele momento to delicado. Nos ltimos dias, a Operao Lava Jato lanou luz sobre essas contrataes, uma vez que a Schahin passou a integrar o inqurito sobre os desvios na Petrobras. No depoimento ao MPF, o publicitrio mineiro deu os detalhes sobre os negcios do grupo, grafado erroneamente como Chahin. Segundo disse aos procuradores, depois que o caso do mensalo veio  tona, ele soube que o banco tinha uma construtora chamada Schahin, que essa construtora comprou umas sondas de petrleo que foram alugadas pela Petrobras, por intermdio do seu diretor Guilherme Estrella, como uma forma de viabilizar o pagamento da dvida, registra o depoimento ao MPF em 2012.

Depois da operao cala-boca em Santo Andr, o negcio das sondas avanou. Em agosto de 2006, a Schahin Engenharia, construtora do grupo, fez sua estreia no clube das empreiteiras fornecedoras da Petrobras. A estatal encomendou-lhe duas sondas de perfurao offshore de um lote de seis por um total de US$ 4,8 bilhes. Alm da Schahin, ganharam o negcio a Queiroz Galvo, a Odebrecht e a Petroserv. Como nenhuma dessas empresas tinha expertise nem capacidade para a construo das sondas, foram buscar no exterior os fornecedores tradicionais do setor, atuando como agentes intermedirios. A Schahin, por exemplo, firmou parceria com a Modec, subsidiria da japonesa Mitsui.

SEGUNDA PARCELA - A PF desconfia que o restante do emprstimo, os outros R$ 6 milhes, possa ter sido embolsado pelo prprio Ronan Pinto, que adquiriu o jornal

At hoje, a Petrobras no explica por que no contratou diretamente os fornecedores. Na ocasio da celebrao desses contratos, Estrella era diretor de explorao e produo e foi o arquiteto do modelo de explorao do pr-sal. Ele dizia que os negcios com as empresas nacionais gerariam uma economia de 25% em relao ao mercado internacional, mas no contou que essas mesmas empreiteiras tinham que comprar as sondas no exterior. O que se v hoje  que a estatal pagou muito mais do que deveria em contratos superfaturados que serviram para o pagamento de propinas a executivos e polticos. Como j foi revelado por ISTO em sua ltima edio, o grupo Schahin cresceu ainda mais dentro da Petrobras nos anos seguintes, negociando o arrendamento e a operao de mais oito navios-sonda e navios FPSO, sigla para definir embarcao de produo, armazenamento e descarregamento de petrleo e gs.

Questionada, a estatal no revela o valor total dos contratos com a Schahin, mas estima-se que cheguem facilmente aos R$ 15 bilhes. Os pagamentos so feitos em mais de 50 offshores abertas em uma dezena de parasos fiscais diferentes. Nas contas da PF, existiriam em nome de empresas de fachada do grupo Schahin mais de uma centena de contas bancrias no exterior, que os investigadores suspeitam terem sido usadas para distribuio da propina. Alm de offshores, o grupo Schahin mantm empresas de fachada no Brasil. Todas localizadas no mesmo endereo: na Vila Mariana, em So Paulo. Uma delas  a 2S Participaes Ltda., que, segundo a PF, seria uma espcie de empresa espelho da S2 Participaes Ltda., de Marcos Valrio. Vrias empresas do grupo Schahin so identificadas pelos dois S, em referncia aos irmos Salim e Milton Schahin.

No ano passado, a PF apreendeu no escritrio de Meire Poza, contadora do doleiro Alberto Youssef, um contrato de emprstimo no valor de R$ 6 milhes, firmado entre a 2S Participaes e a Expresso Nova Santo Andr, de Ronan Maria Pinto, o chantagista do caso Celso Daniel. Durante o processo do mensalo, descobriu-se que a 2S serviu de entreposto para repasses de diversas outras empresas, inclusive a corretora Bnbus Banval, de Enivaldo Quadrado, mensaleiro condenado e que est tambm envolvido na operao Lava Jato. Para a PF, o contrato entre Valrio e Ronan teria servido para simular o repasse de metade dos recursos obtidos por Bumlai, com o objetivo de ocultar sua origem. A PF desconfia que o restante do emprstimo, os outros R$ 6 milhes, possa ter sido embolsado por Bumlai, retornado para o grupo Schahin ou ido parar na conta de uma terceira pessoa. Outra opo  que o dinheiro tambm tenha ido para Ronan, que adquiriu inicialmente 50% do Dirio do Grande ABC, mas depois comprou os 50% restantes.

EM TODAS - Mencionado por Marcos Valrio, o ex-ministro Jos Dirceu, que cumpre priso domiciliar, sempre negou qualquer envolvimento no episdio do assassinato de Celso Daniel

A fora-tarefa da Lava Jato deve requisitar nos prximos dias cpia do inqurito que corre na Superintendncia do Distrito Federal. Para delegados que investigam o Petrolo, so cada vez maiores os indcios de que o grupo Schahin integrou o clube de fornecedores da Petrobras que superfaturou contratos e desviou recursos pblicos para o pagamento de propina a polticos do PT, PMDB e PP. Em depoimento recente, o ex-diretor de abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa citou a ligao de Bumlai com o PT, alm do vnculo estreito do pecuarista com o lobista Fernando Baiano, ligado  cpula do PMDB. Bumlai, segundo Costa,  quem teria garantido a Baiano o livre trnsito na estatal.

Descobriu-se tambm que, entre 2010 e 2011, o pecuarista negociou diretamente com a estatal. Foi scio de uma fornecedora de equipamentos e peas para grandes obras chamada Immbrax, numa parceria com o grupo Bertin. O empresrio conta que s se associou  Immbrax para importar equipamentos para uma de suas fazendas. Na delao premiada que serviu de base para a deflagrao da nona fase da operao Lava Jato, na semana passada, o ex-gerente de engenharia Pedro Barusco reforou a verso de que a Schahin participou do esquema de corrupo. Apontou Mario Goes como o operador do grupo e de outras empreiteiras. Segundo Barusco, Goes guardava o dinheiro em seu apartamento em So Conrado, no Rio. E fazia entregas de mochila. Segundo investigaes preliminares, Goes seria Mario Frederico de Mendona Goes, dono da Mago Consultoria, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval e membro do Instituto Brasileiro de Petrleo e Gs (IBP). 

NEBULOSO - At hoje o assassinato do ento prefeito de Santo Andr Celso Daniel (PT), ocorrido em 2002, est envolto em mistrio. No ano passado, o processo, que estava no STF, foi anulado desde a fase dos interrogatrios


4#2 COMO VACCARI MOVIMENTOU US$ 200 MILHES EM PROPINAS PARA O PT
Revelao de delator aumenta o impacto poltico da Lava Jato e, conforme antecipou ISTO, o cerco se fecha em torno do tesoureiro do PT
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

A Polcia Federal deflagrou na madrugada da quinta-feira 5 mais uma etapa da Operao Lava Jato. Ela foi batizada de My Way. Seguindo rastros obtidos com a delao premiada do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, 200 agentes cumpriram 62 mandados em So Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Santa Catarina. Na ao da semana passada  a nona desencadeada desde maro , pela primeira vez uma subsidiria da Petrobras, a BR Distribuidora, entrou no foco dos investigadores. At a oitava fase, apenas as diretorias de servios, internacional e abastecimento da estatal concentravam as denncias. A maior novidade, no entanto, est no alcance poltico do trabalho policial. Agora, a PF aponta as suspeitas para o tesoureiro do PT, Joo Vaccari. O dirigente partidrio foi levado para prestar depoimento e sua casa foi vasculhada durante o cumprimento de mandados de busca e apreenso.

As declaraes de Barusco reforam os indcios de que Vaccari ocupa lugar de destaque na rede criminosa instalada dentro e em torno da Petrobras. Para a PF, ele foi guindado de mero tesoureiro para a condio de operador do esquema. Na ltima semana, reportagem de ISTO j havia mostrado as estreitas ligaes do tesoureiro do PT com a empreiteira Schahin, uma das empresas investigadas pela Lava Jato mais prximas do partido. Surgem as digitais do tesoureiro na Lava Jato, estampou a matria. A partir das informaes divulgadas na Operao May Way, sabe-se agora que, de 2003 a 2013, o tesoureiro do PT recebeu entre US$ 150 milhes e US$ 200 milhes em propina na intermediao de 90 contratos superfaturados da companhia com empresas investigadas pela Lava Jato. As revelaes que comprometem ainda mais Vaccari foram feitas por Pedro Barusco. Houve pagamento de propinas em favor do declarante (Barusco) e de Renato Duque, bem como em favor de Joo Vaccari Neto, representando o Partido dos Trabalhadores, diz trecho do documento prestado  PF. Renato Duque, a quem Barusco era subordinado, ocupou o cargo de diretor de servios da Petrobras at 2012.

Em planilhas de pagamentos apreendidas, o tesoureiro do PT  identificado como Moch, por estar sempre carregando uma mochila. O ex-gerente calculou o montante de US$ 200 milhes para o PT levando em conta a parcela que ele e Duque receberam nas negociatas: US$ 50 milhes. Na regra de diviso da quadrilha, o PT era o que mais recebia. Dois teros para Joo Vaccari, um tero para a Casa 1 e um tero para a Casa 2, afirma o delator. Casa 1 era o termo usado para as propinas angariadas no mbito da diretoria de servios da companhia e Casa 2 se referia  Sete Brasil, empresa criada com apoio da Petrobras para produzir sondas de explorao do pr-sal. O prximo passo da Polcia Federal  tentar descobrir onde esses US$ 200 milhes foram parar. Dados de 20 contas no exterior foram entregues  fora-tarefa da Lava Jato. S na negociao com scios do estaleiro Kepell Fels, Vaccari teria recebido US$ 4,5 milhes. Algumas vezes, a propina era paga em jantares em hotis de luxo do Rio de Janeiro e de So Paulo.

O depoimento de Barusco foi feito em novembro. Antes de colocar as diretorias da Petrobras chefiadas pelo PT no centro do escndalo, a fora-tarefa se dedicou ao cartel formado pelas empreiteiras. Os detalhes da rede de corrupo fornecidos pelo ex-gerente retratam como a legenda transformou a indicao de Renato Duque em uma mina de recursos ilcitos. Por ter foco no ex-diretor, a operao da semana passada ganhou a alcunha de My Way, cano de Frank Sinatra usada por Barusco quando queria se referir discretamente ao chefe. Segundo o ex-gerente, o ento diretor de servios no precisava nem mesmo cobrar o suborno, pois a propina fazia parte da relao com os empreiteiros. Duque ganhou, no incio de dezembro, habeas corpus do STF, por isso no teve mandado de priso decretado, apesar das acusaes. Na ltima semana, o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, voltou a defender a priso do ex-diretor.

A atuao de Duque como arrecadador de recursos com origem ilcita para as campanhas do PT foi detalhada por Barusco para os integrantes da fora-tarefa. O ex-gerente narrou um episdio em que o ex-diretor se encontrou com Jlio Faerman, representante da empresa holandesa SBM, para pedir doao de US$ 300 mil para a campanha do partido em 2010. Conforme revelou ISTO na edio de 21 de novembro do ano passado, uma das linhas de investigao da Polcia Federal aponta para a possibilidade de que recursos provenientes de contratos com preos superfaturados tenham sido repassados como doaes eleitorais legais para quatro partidos da base parlamentar do governo: PT, PMDB, PP e PTB. A fora-tarefa, agora, tenta desvendar a estratgia de dissolver a propina em doaes autorizadas pela legislao, o caixa 1.

Acossados pela May Way, o PT e o advogado de Vaccari divulgaram nota em que fazem a defesa da lisura da arrecadao do partido. O PT no tem caixa 2, nem conta no exterior, no recebe doaes em dinheiro e somente recebe contribuies legais ao partido, afirma o texto. A situao para o partido, no entanto, comea a se complicar. De to assustado, Vaccari nem sequer abriu o porto quando os policiais cumpriram mandado de busca na manh da quinta-feira 5. Os agentes tiveram que pular o muro para entrar na casa do tesoureiro, apreender documentos e conduzir o petista para prestar depoimento. O presidente do PT, Rui Falco, admitiu a interlocutores que o quadro poltico  grave. 


4#3 NOVO COMANDANTE
Aldemir Bendine assume a Petrobras em meio  maior crise de sua histria com o desafio de renovar a gesto da empresa, recuperar seu valor de mercado e acabar com a ingerncia poltica e partidria 
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

Na sexta-feira 6, o conselho de administrao da Petrobras oficializou o nome de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, para o comando da estatal. Em contraste com as indicaes anteriores para o primeiro escalo, a escolha do novo comandante da Petrobras foi uma das boas apostas da presidente Dilma Rousseff para o segundo mandato. Bendine construiu uma carreira slida no BB, onde est h 37 anos. No comando da instituio desde abril de 2009, o executivo levou o banco a atingir resultados slidos e lucrativos, tornando-o um dos mais rentveis do Pas. Entre 2009 e 2013, o volume de financiamentos dobrou de R$ 320,7 bilhes para R$ 692,9 bilhes, o total de ativos saltou de R$ 708 bilhes para R$ 1,3 trilho e os juros baixaram. H dois anos, o presidente do BB inovou e comandou a maior abertura de capital do mundo, captando R$ 11,47 bilhes no IPO do BB Seguridade.  esse esprito renovador que o executivo deve levar para a Petrobras, hoje submersa na maior crise da sua histria.

Bendine assume a estatal em um dos piores cenrios imaginados para a empresa. As aes da petroleira ruram, diretores prestigiados foram presos e decidiram contar detalhes sobre as fraudes que abalaram os lucros da Petrobras. Alm disso, h processos judiciais em curso que podem gerar multas bilionrias  petroleira brasileira, o que aumentaria ainda mais seus problemas financeiros. A ex-presidente Graa Foster deixou o cargo em meio a denncias de corrupo e s incertezas sobre os reais prejuzos causados pela ingerncia poltica e partidria na empresa. Sua gesto acumulou prejuzos de R$ 225 bilhes e ela ficou com o nus de um escndalo que, embora no tenha surgido em sua gesto, cresceu e consolidou-se com ela no comando da estatal.

Diante desse cenrio, o novo presidente recebeu a garantia de que ter autonomia para renovar a gesto da empresa impondo seu estilo. Os desafios no sero poucos. Os investimentos mal planejados de refinarias em lugares que no contavam com a mnima estrutura e a opo pelo polmico sistema de partilha para a explorao do petrleo no Pas, em vez dos critrios de concesso usados em naes desenvolvidas, so alguns dos pontos que a nova diretoria ter de enfrentar. Alm disso, o novo comando da estatal entende que, para estancar a crise que abate a petroleira, ser preciso comear por um levantamento honesto e realista sobre o tamanho dos estragos causados pela corrupo e m gesto nos ltimos anos.

H duas semanas, a ento presidente Graa Foster comprou uma briga com o Planalto ao divulgar o balano que apontava para um rombo de R$ 88,6 bilhes nas contas da empresa, ressalvando que os nmeros no haviam sido auditados e tampouco incluam todos os valores desviados por gestores que cobravam propina em troca de contratos. No balano divulgado, Foster afirmou que a estatal chegou ao valor de R$ 4 bilhes de perdas pelos desvios, levando em conta a informao fornecida pelo ex-diretor de abastecimento Paulo Roberto Costa, de que era cobrado 3% em propinas para cada contrato fechado. Mas admitiu: O valor pode ser ainda maior. Os nmeros imprecisos geraram uma ao administrativa da Comisso de Valores Mobilirios (CVM) contra a estatal. A comisso argumenta que compete  administrao da companhia elaborar demonstraes financeiras que resultem na evidenciao de informaes fidedignas sobre a situao financeira, patrimonial e o desempenho da sociedade, o que no aconteceu.

A gesto de Bendine ter incio efetivamente depois da divulgao do balano trimestral da empresa, embora os novos diretores no tenham participado do estudo. Dilma Rousseff tentou poupar o novo presidente de um possvel desgaste, pedindo que Graa Foster permanecesse no cargo at assinar o balano sobre os resultados da sua prpria gesto. Pela primeira vez, Foster disse no. Foi seguida por cinco dos sete diretores e o mercado reagiu bem  renncia coletiva. A sada do grupo era esperada desde o fim do ano passado, quando o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, que detm detalhes das informaes da Operao Lava Jato, afirmou que Dilma deveria ter destitudo a diretoria da estatal desde o incio das investigaes da operao, que fez a Petrobras submergir no escndalo de corrupo. A partir de agora, as chances de recuperao da Petrobras parecem reais, com a chegada de um executivo de carreira slida, que tem no currculo resultados consistentes para apresentar e metas financeiras atingidas.  um bom comeo para o incio da reconstruo da imagem da empresa que  o maior patrimnio brasileiro.


4#4 HOUSE OF CUNHA EM NOVA TEMPORADA: AGORA  PRESIDENTE DA CMARA!
A desarticulao poltica do governo, a falta de controle do Planalto sobre a fisiolgica base aliada e os erros de clculo de Dilma levam  vitria de Eduardo Cunha na disputa pela presidncia da Cmara
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

Num ambiente inflamvel como o atual, erros de clculo poltico costumam ser imperdoveis. Ainda mais quando so cometidos em sequncia. Por isso, a deciso equivocada da presidente Dilma Rousseff em lanar um candidato do PT para confrontar outro da base governista, somada  completa desarticulao poltica do governo e  falta de sintonia de uma bancada aliada cada vez mais fisiolgica, e ao mesmo tempo imprevisvel, dificilmente poderia atravessar o tapete verde da Cmara impunemente. O resultado foi a vitria acachapante de Eduardo Cunha na eleio  presidncia da Casa. Sem necessidade de segundo turno, com 267 votos, o deputado do PMDB superou o candidato Arlindo Chinaglia, do PT, por uma diferena de 136 votos  margem considerada inimaginvel pelos petistas mais otimistas. O PT no conseguiu sequer eleger algum integrante do partido para a Mesa Diretora da Cmara, considerado o alto clero do Legislativo. O pior  que informaram para a bancada que Arlindo poderia ganhar no primeiro turno.  muita incompetncia, estrilou Cndido Vaccarezza, do prprio PT paulista.

O ELEITO - O deputado do PMDB Eduardo Cunha (que figurou na capa da edio 2312 de ISTO) superou o candidato Arlindo Chinaglia, do PT, e obteve o controle da Cmara

O placar final na Cmara, por si s, j indicaria a dificuldade que o Planalto ter para aglutinar sua base de apoio. Afinal, no pesou favoravelmente ao candidato do PT nem mesmo o fato de os partidos governistas constitudos na Casa estarem contemplados no novo Ministrio de Dilma. Mas, ao que tudo indica, a vida do governo ficou ainda mais difcil. Aps a reunio de lderes realizada na tera-feira 3, Eduardo Cunha deu a exata dimenso de suas pretenses, agora que foi guindado ao comando da Cmara. Eu s converso com a presidente Dilma. No adianta mandar ministro falar comigo, afirmou, ao ser informado sobre uma ligao do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Como ISTO lembrou em sua edio 2312, de maro do ano passado, Cunha  uma figura poltica que lembra o personagem Francis J. Underwood, o protagonista da srie House of Cards interpretado pelo ator Kevin Spacey. Underwood  um ambicioso senador que se sentiu escanteado pelo presidente americano e, em retaliao, criou um plano de vingana baseado em um jogo bruto de acmulo de poder que o guindou  Presidncia da Repblica. Nessa nova temporada, Cunha no chegou l como Underwood, mas ocupa hoje o segundo cargo na linha sucessria de Dilma Rousseff. No  pouco. A cadeira de presidente da Cmara permite ao seu ocupante a rara possibilidade de influenciar nos rumos polticos do Congresso, alm da prerrogativa de administrar um oramento de R$ 5,2 bilhes. Mas os planos de Eduardo Cunha ultrapassam as fronteiras do prprio cargo: ele acalenta o desejo de se tornar o principal interlocutor do governo no PMDB e, quem sabe at, no Parlamento, tarefa que j coube a outras cabeas coroadas do seu partido. Para conseguir essa condio especialssima, Eduardo Cunha j demonstrou que no medir esforos.

Na quinta-feira 5, o peemedebista autorizou a instalao de uma nova CPI da Petrobras, pleiteada pela oposio para apurar as irregularidades e os desvios de recursos que envolvem a estatal. Alm disso, aprovou s pressas o projeto de oramento impositivo, que tira do governo a possibilidade de bloquear parte dos recursos das emendas parlamentares. A proposta  um sonho antigo dos deputados, que dependem do Executivo para mandar recursos para obras em seus redutos eleitorais. Com a aprovao do projeto, o governo perder ainda mais poder de barganha com o Parlamento. Ele lana mo da estratgia que consiste em criar dificuldades para vender facilidades. Dessa forma, acredita que o governo se curvar aos seus anseios, afirmou um aliado de Cunha.

Nos prximos dias, a Cmara deve votar ainda uma proposta de reforma poltica nos moldes no pretendidos pelo Planalto, garantindo o financiamento privado nas campanhas eleitorais. O fim dessa modalidade de captao de recursos foi uma das promessas de campanha de Dilma, mas o peemedebista  contra. No por acaso. Esse jogo do financiamento privado foi justamente o que o ajudou a acumular poder.

Cunha vem colocando seus planos em prtica com a convico de quem conta com um apoio multipartidrio. H anos, o peemedebista desfruta da fidelidade da bancada do Rio de Janeiro. Um consenso em torno de si conquistado graas ao seu poder de dar a palavra final sobre a distribuio de dinheiro dos financiadores durante as campanhas eleitorais. Seu tamanho no Parlamento vem sendo definido ainda por critrios ideolgicos. Cunha mantm influncia direta na bancada evanglica, que cresceu 14% este ano e elegeu 80 deputados federais. Esse segmento enxerga o novo presidente como um aliado para a pauta conservadora que defende.

Eduardo Cunha ainda tem a favor do seu jogo poltico um raro conhecimento do Regimento Interno da Casa, que permite manobrar votaes e injetar temas em medidas provisrias de acordo com suas estratgias. Por conta disso, nos ltimos anos, o peemedebista comeou a atrair parlamentares de outras bancadas e partidos interessados em incluir temas diversos nos textos de medidas provisrias. Com as assessorias que prestava, aumentou seu prestgio com deputados do baixo clero. Alm disso, em campanha pela presidncia, prometeu pequenos favores e fez o discurso em defesa das regalias, como aumento do tamanho dos gabinetes e das cotas de passagens. Ganhou, assim, o apoio de parlamentares novatos dispostos a usufruir das benesses do cargo. 

